Domingo, 17 Setembro 2017 12:56

O homem do caixão em pé

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Era década de 60, mais ou menos no início. Uma cena esquisita era presenciada constantemente pela população de Salvador. Um homem de físico franzino, extasiava a todos caminhando pelas modestas ruas fazendo o seu trabalho. Seu nome, ninguém sabe informar até hoje. Mas para conduzir a leitura, vou chamá-lo aqui de, “João, O homem do caixão em pé”.
João trabalhava para uma das funerárias que prestavam serviço à população mais pobre e que não podia pagar um carreto para trazer o popular “porta defunto” até a casa do falecido para a cerimônia do velório. É que nos dias de hoje, os velórios são realizados no cemitério, mas naquela época a cerimônia acontecia na própria casa do morto, e após uma noite de sentimentos demonstrados com chororôs e desmaios, o féretro saía com o pequeno cortejo seguindo a pé, até o cemitério que geralmente era o das Quintas dos Lázaros.
Eu era garoto e morava no bairro do Tororó, não sabia ao certo onde era a funerária, mas como ele surgia sempre do final de linha, era provável que seria, ou na Avenida Vasco da Gama ou no bairro do Garcia.

Como um profissional de personalidade, João cumpria a sua honrosa obrigação de maneira e forma própria. A grande diferença na condução do “envelope de madeira” até o local do velório, era que João, de pés descalços, o conduzia na cabeça. Até aí tudo bem, não seria nenhuma novidade. O inusitado era que ele equilibrava o caixão na cabeça, mas em posição vertical, e nunca se teve notícia de que ele o tivesse deixado cair.
Era dessa forma que João ganhava o pão de cada dia. Se era também por exibicionismo, não sei. O certo é que ele atraía a atenção de todos e de certa forma contribuía para aliviar um pouco aquele sentimento repugnante que atinge a todos nós quando vemos um caixão funerário, que hoje, bem mais delineado e em madeira envernizada, tem um formato menos chocante que antigamente.

Não me lembro se algum jornal fez matéria sobre isso. Eu sempre quis escrever sobre "O homem do caixão em pé”, mas sem uma ilustração, talvez não oferecesse muita credibilidade. Por isso, quando me enviaram essa foto, fiquei num entusiasmo só.
Agora, para vocês que vieram ao mundo pós aquela saudosa época, e para aqueloutros que testemunharam, ou até nem lembravam mais, está aí a prova, para que conheçam ou relembrem dessa figura folclórica, integrante do quadro das coisas típicas e exclusivas desta nossa querida Bahia, diferente, mágica e que tanto nos orgulha.

Max Matos, dizendo tudo.

* Esse saudoso testemunho está no meu livro, que será lançado em breve. Com fé em Deus.

Ler 99 vezes Última modificação em Quarta, 20 Setembro 2017 22:47

2 comentários

  • Link do comentário Gilia Matos dos Santos Segunda, 18 Setembro 2017 15:54 postado por Gilia Matos dos Santos

    É muito equilíbrio desse homem.

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  • Link do comentário Valmiro Mota Quarta, 20 Setembro 2017 19:50 postado por Valmiro Mota

    Lembro bem dessa sua publicação há uns anos atrás, Max. Uma história interessante. Coisa típica da nossa Bahia.

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